segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O dia que conheci um abrigo

Infelizmente, não fui permitida de tirar fotos no abrigo. Guardei as fotografias no peito.


   Isabel mora em um abrigo, os pais são dependentes químicos e abandonaram-na. Isabel tem cabelos ondulados, sorriso largo e uma simpatia inigualável. Isabel tem pouco mais de dois anos. Isabel, quando me viu, gritou um "tia" como se me conhecesse e estivesse me esperando. Isabel apontou para mim, implorando um colo. Isabel me abraçou, fitando-me nos olhos, como se admirasse. Isabel, estou apaixonada por você.
   Ana Ester, ao contrário de Isabel, recebe visita da mãe à tarde. Ana Ester também tem a mãe como depende química. Ana Ester tem pouco menos de um ano, é moreninha e tem um cabelo bem fininho. Ana Ester me olhava com os olhos negros arregalados, como se tentasse entender o que eu tava fazendo ali. Ana Ester tem um corpo levinho, é difícil de fazer rir, mas ama que façam cócegas na barriga. Ana Ester chorou quando coloquei-a no berço. Ana Ester calou-se com o bico e ficou admirando a televisão. Ana Ester, estou apaixonada por você.
   Mariana não recebe a visita dos pais. Mariana tem pouco mais de três anos e uma irmã de quatro, no mesmo abrigo. Mariana só pode ser adotada junto com a irmã. Mariana tem cabelos cacheados, olhos puxadinhos e o sorriso mais lindo que já vi. Mariana queria sempre me abraço, um beijo, um carinho qualquer que fosse e já tava satisfeita. Mariana é branquinha, com uma barriguinha fofa e os bracinhos grossos. Mariana é uma criança que te deixa sem palavras. Mariana, estou apaixonada por você. 
   Eu poderia escrever inúmeros parágrafos, descrevendo cada criança que conheci naquela noite em que fui deixar minha avó no trabalho, na Casas Abrigo, localizado no bairro Cristo Redentor, em Fortaleza. 
   Diria que cada uma tem uma história que te faz refletir sobre a vida, sobre o improvável. Diria que as drogas afetam toda a família, pois matam, no sentido literal, deixam órfãos. Diria que deixar uma criança sozinha em casa, por mais que pareça inofensivo, pode destruir a vida de uma mãe, que terá o filho tirado dos seus braços. Diria que as brigas dos pais podem ser fatais. Diria que a gravidez na adolescência e o abandono é uma triste realidade.  
   Diria que fui tratada como uma estrela, uma celebridade: cada criança, de todas as idades, a todo custo, querendo minha atenção, um abraço ou, até mesmo, um tchauzinho com a mão. Diria que me agarravam, não queriam que eu fosse embora, me pediam para brincar. Diria que tive vontade de ter braços e força que me fizessem capaz de segurar várias crianças ao mesmo tempo, porque até ciúme tiveram, quando eu colocava no chão uma para pegar outra. Diria que até as meninas maiores, de mais de dez anos de idade, me abraçaram e sorriram como se eu já fosse amiga. Diria o quanto fiquei impressionada com a força de um abraço sobre uma pessoa. Diria que segurei o choro na frente de todos. Diria que chorei no caminho para casa. Diria que adotar é um ato lindo de amor. Diria que tomei a decisão mais importante da minha vida: futuramente irei adotar uma criança.

domingo, 10 de julho de 2016

Confissão




   Enquanto teus braços grossos me envolvem, desenhando, com os dedos mesmo, minhas curvas, eu jazo. Teus lábios me beijam como se os meus fossem os únicos da tua vida. Minha respiração falha, perco minhas forças e entrego-me até a hora de partir. Permiti-me, em uma noite, que você fizesse parte da viagem, sem questionar se era esse teu desejo. Depois dali, você me fez beijar com os olhos e sentir calor, mesmo batendo os queixos. 
   Apaixono-me, a cada encontro, pelo teu caos, pelo teu exagero, pela guerra dentro de si e pela visão de mundo. Ao encarar-me, sinto-me baleada, desarmada, atordoada. Teu corpo quente serve de escudo para os meus medos e nossas conversas são terapias para meus sentimentos. Saiba que minha aurora é você, que seu desgasto não me desgasta, que é meu remédio contra ansiedade. Não se prive disso, por favor.
   Desculpa-me se te chamo logo no dia seguinte. Teu cheiro desaparece das minhas roupas e eu sinto falta dele até cair no sono. Por favor, não me julgue pela coragem de estampar nas palavras o que eu guardo dentro da confusão do meu estômago. Fica do meu lado, não muda de barco. 
   Certas vezes, você me confrontou sobre a existência de outro rapaz na minha vida. Tive vontade de gargalhar, tamanho absurdo que ouvi. Tentei, confesso, ter outra presença, mas falhei. Tu já havias me entrelaçado, me encurralado, me machucado o suficiente para me permitir ficar.    
   Meu bem, estou ocupada sendo sua para me apaixonar por outra pessoa.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Se entrar, fica




Distancie do meu exagero, das minhas fugas da realidade e da minha carência que só abraços são capazes de curar. Pode soar simples, mas não queira entrar nessa confusão sem tirar os sapatos. 
Não arrume minhas gavetas e tão pouco a minha cama. Não me tire para dançar e nem invente de trazer pizza para o jantar. Não coloque sua música em mim, não recite autores sem intenção. Mas se os fizer, fique e tenha paciência, por favor. 
Porque eu vou segurar na tua mão e te levar para conhecer minha visão de mundo. Farei caretas e piadas, na maioria das vezes para fugir dos momentos ruins, e, na sua caixa de emails, terá sempre um texto, assim, sem motivo, provando meu carinho por você.
Se realmente deseja entrar, eu até arrumo um espaço no guarda-roupa para você. Permitirei que você conheça minhas fantasias e segredos. Protegerei-te de ciúmes e serei sua melhor amiga. 
Mas seja intenso, está bem? Exagere, me proteja e não me abandone. Por favor, não me ignore, não guarde nada para si e, acima de tudo, não arrume suas malas de repente. 
Não guarde mais "e se", desperdício-os comigo.   

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

DIY: Como cuidar SÓ da sua vida

   Fui tirar o carro da garagem e encostei na árvore do vizinho (perdoa aí, porque a carteira é recente e tô dirigindo pra valer agora). Veja bem: ENCOSTEI. Bati? Não. Amassou? Não. Por quê? PORQUE EU SÓ ENCOSTEI. O vizinho DO LADO, que não tinha nada a ver com a história, viu. Cheguei em casa à noite e o assunto era a minha batida monstruosa que quase derrubou a árvore alheia e sabe-se lá Deus como não amassou o carro. Levei uns gritos maravilhosos e só fiquei calada olhando pro chão. Não dei um piu. Detalhe: esse vizinho fofoqueiro não fala com ninguém da minha casa (só quando responde ao bom dia da trouxa aqui, vulgo, eu). Agora, já tiro o carro e coloco na garagem tranquila e prestando BEM atenção (com o vizinho na varanda olhando escondido, se achando o James Bond, mas que, na verdade, dá pra ver a cabeleira branca de longe escondida). Olho feio pra ele na hora de sair? Não. Dou um sorrisinho e o bom dia de sempre.

Por fora:



Por dentro:




Inspirado nessas pessoas encantadoras, resolvi fazer um post de como parar de se importar com a vida alheia.


Passo número 1: Guarde as fofocas pra você.



Até entendo que fofoca seja construtiva em algumas situações, quando usada na finalidade de ajudar (por exemplo, Luana fez merda, mas não é sua amiga. Carol, entretanto, é sua amiga e amiga de Luana. Você faz fofoca pra Carol ajudar Luana, já que não tem intimidade suficiente para fazê-la). Fora isso, você precisa mesmo falar da vida alheia? Será que a sua é tão ruim assim pra ser ignorada? Fica a questão aí no ar.


Passo número 2: Questione a si mesmo se criticar é necessário.



Um fato X aconteceu. Você faz fofoca de tal fato e ainda expõe seu ponto de vista. Entenda: além de expor sua opinião, a pessoa que está te ouvindo também vai criar o próprio ponto de vista e, assim, na hora de comentar o episódio com outra pessoa, acontecerá o mesmo. O problema é simples: quando se expõe a opinião, ela, normalmente, é generalizada. Como assim? Fulano fez algo que o intitula como egoísta, mas Fulano não é egoísta, só foi porque a situação o fez ser. Logo, aumenta-se as histórias. Entendeu?


Passo número 3 e o MAIS IMPORTANTE: Questione a si mesmo se isso muda algo na sua vida.



Muda? Tem certeza? Não? Então cala a boca. <SIMPLES>

domingo, 17 de janeiro de 2016

Seios: uma relação de amor e ódio

   



   Que esplêndido são teus seios!
   São tuas armas mais perigosas
   e primorosos como as rosas.
  
   Fazem de ti provocante,
   tendo atenção dos indiscretos
   roubando olhares sem esforço.
   Tens a confiança no teu rosto.

   São teus e de mais ninguém.
   São como o calafrio que percorre o espinho
   e macios como veludo também.

   Num dia tá de bem,
   no outro se incomoda. 
   Nas conversas alheias se afoga
   e finalmente se acorda.
   
   Moça, usa tua sedução,
   esquece a insegurança,
   e confia no coração.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Praia




   Mergulhei-me na tua raiva,
   respirei teu medo,
   nadei nos teus lábios,
   e me afoguei logo cedo.

   Você banhou minha alma,
   destruiu as mágoas
   e só trouxe calma.
   
   Me abandonou na praia, 
   assim, sem avisar.
   Deixou de ser mar 
   e em outros oceanos
   não me ensinou a nadar.   

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Fim de ano




Bronzeou-se
cortou o cabelo
pintou a boca
cresceu as unhas
depilou a coxa
vestiu um sorriso
e amou-se.

Amou
foi amada
foi verdadeira
o tempo não deixou
teve tropeços
errou por medo.

Bebeu pra esquecer
riu na hora errada
arrependeu-se de beijar
duvidou das palavras
leu os olhares alheios
e dançou a noite toda.

Beijou os medos
brigou por egoísmo 
amou sozinha
fez promessas.
Não cumpriu.

Deu errado
deu certo
enraivou-se
respirou fundo
pensou.
Ano que vem, vai.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Querido




   Veja os movimentos que está fazendo.
   Carregando-me nos braços
   e fazendo-me flutuar sobre nossos sonhos.
   Por favor, deixe-me viajar nos teus traços.

   Eu sei que você disse para eu desligar a música,
   antes que chegasse no refrão.
   Eu não quero que você mude por mim, 
   então deixe-a tocar no coração.

   Querido...

   Esteja aqui, por favor.
   Continue nesse lugar.
   Disseram para eu desistir.
   Não, eu quero viajar
   (em você).

   


   

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O que eu aprendi com um assalto

Direitos autorais aqui.
  


   Terça-feira (25), fui assaltada no bairro João XXIII, em Fortaleza. Às 5:30 da manhã, saí de casa em direção à parada de ônibus que fica cerca de dois quarteirões da minha casa. Logo no primeiro quarteirão, um moreno de regata vermelha, que aparentava ter 25 anos, parou rapidamente com uma moto ao meu lado. "Eu só quero o celular", ele disse com os olhos arregalados e com a voz calma. Gelei, paralisei, não consegui me mexer (eu realmente não consegui entender o que aconteceu comigo até hoje). Depois de alguns segundos (uns dos mais longos da minha vida), ele pediu minha bolsa, já puxando-a de mim. "Moço, deixa eu só pegar meu livro, tô indo pra faculdade", foi a única coisa que consegui falar, totalmente em vão. Ele dobrou numa rua sem saída, voltou, e dobrou na próxima. 
   Bolsa, caderno (com todas as anotações do ano), duas apostilas (você já deve saber que graduando é pobre e só tem xerox na bolsa), constituição, relógio, perfume, documentos (eu ia resolver uns problemas e precisava deles, eu só costumo andar com um documento com foto), carteirinha do plano de saúde (desde pequena fui orientada a sempre ter comigo), 50 reais (também 
destinados a xerox e encadernação de livros) foram levados de mim. Chorei, principalmente pelo caderno e pelos documentos (dava uma dor só de imaginar o tempo que eu teria que enfrentar para tirar segunda via).
   Liguei para minha mãe, ela veio até minha casa, foi comigo na delegacia mais próxima e fizemos um B.O. Fui no Vapt Vupt da Messejana e descobri que precisaria tirar a segunda via da minha certidão de nascimento (eu não sei você, mas não faço a mínima ideia de onde anda a minha).
   Fui para casa, totalmente magoada, agradeci minha mãe e deitei na cama. Quando entrei no meu facebook, uma luz no final do túnel surgiu: um desconhecido falou comigo informando o número pessoal e dizendo que havia encontrado minha CNH e título de eleitor. Liguei, agradeci, chorei (mais uma vez). Ele me deu o endereço do trabalho e fui lá com meu namorado.
   Quando chegamos lá, Alemão, um mecânico muito simpático, disse que mora perto do Dragão do Mar e passa por lá todo os dias às 6:50 para pegar ônibus e ir ao serviço. Na Praça Verde, encontrou meus documentos no chão e levou para a oficina, avisando aos colegas e perguntando o que fazer. Eles tiveram a ideia de me procurar no facebook e falaram comigo às 8 da manhã (eu estava na delegacia nesse horário). Eles ainda pensaram até em ligar para a Verdes Mares (filiada da Globo aqui em Fortaleza), porque eu não respondia (o que me fez chorar mais ainda, me desculpa). "Como eu encontrei teus documentos longe um do outro, te aconselharia ir lá e perguntar pros seguranças se encontraram alguma coisa", disse Alemão. Dito e feito: fui lá com meu namorado.
   "Moço, é que eu fui assaltada mais cedo e um rapaz encontrou meus documentos aqui perto, mas ainda falta outros, o senhor pode me informar se foi encontrado algum?", perguntei ao segurança. "Qual seu nome?", ele perguntou, me olhando. "Nathália", respondi. "...de Paula?", ele perguntou e não pude esconder o sorriso. Minha carteira e minha identidade estavam na administração do Dragão do Mar. Novamente, mais agradecimentos. 
   Plano de saúde, fica mais fácil tirar segunda vida. Apostila, a gente tira xerox de novo. Cinquenta reais vem em dobro mais tarde, se você batalhar por isso. Bolsa, a gente compra bem baratinho. Constituição tá ultrapassada e sendo vendida por vinte reais. Relógio, a gente compra outro (ai, que falta me faz esse...). Perfume, a gente substitui rapidinho (obrigada, mamãe!). Honestidade... Bem, a gente não encontra em qualquer esquina, viu? Uma chama acendeu dentro de mim trazendo esperança sobre a existência de pessoas boas no mundo. Meus vizinhos, batendo na minha porta ou onde quer que eu fosse, perguntando se eu estava bem com um abraço e um "qualquer coisa que precisar, me avise, ok?" foi mais um motivo.
   Hoje, eu levo comigo apenas uma xerox autenticada da identidade, fico ainda mais atenta com o que acontece ao meu redor e já tô procurando um relógio de dez reais (porque sem relógio não dá, sério).
   Eu não vou questionar o porquê de "Deus ter me abandonado", não vou dizer que a culpa é da Dilma, não vou cuspir palavras brutas sobre a atual política e não vou, muito menos, julgar o que "merece" ou não o moreno de camisa vermelha, até porque já aconteceu, né? O que eu ganharia com tudo isso? Tive sorte por não ter levado, no mínimo uns tapas, e agradeço até hoje por isso. A gente se preocupa tanto com coisas fúteis que esquece de ver o lado bom das coisas. Eu consegui ver o lado bom do meu assalto, mas e você? Fez algo parecido?



Essa é uma história real que aconteceu comigo no tempo e espaço mencionados.
Postar um relato sobre assalto com a opção "curtir" no facebook nunca me pareceu coerente, por isso decidi publicar aqui. 
Alemão é mecânico na oficina 6 Bocas. (Você pode encontrá-la aqui).

sábado, 25 de julho de 2015

Vizinha






   Esse ano, voltei a morar na mesma casa que cresci até os nove anos. Aqui, a rua (especificadamente com o nome travessa), abriga vizinhos que fazem parte da família por consideração há mais de quarenta anos. Relembrei da costureira grávida, que hoje tem um garoto de dez anos que vive caindo de bicicleta, e da bodega da esquina, que contratou um segurança que dorme em serviço na calçada. Assustei-me com as mudanças (dois shoppings e dezenas de restaurantes novos) e com a quantidade de gente que lembrou de mim, trazendo abraços fortes, sorrisos largos e sempre um "qualquer coisa que precisar, me avise, ok?".
   Todos os dias, eu acordo bem cedo e pego três ônibus para chegar à faculdade. Acostumei-me com as responsabilidades rapidamente e fui me adequando ao ambiente do meu jeito. 

   Em um desses dias que a rotina me abraçou, acordei com o barulho do despertador e fui ao banheiro. Meio zonza ainda, liguei o chuveiro e deixei a água percorrer por todo o meu corpo, banhando-me tranquilamente. Quando a poesia realmente fez folia em minha vida, você veio me falar dessa paixão inesperada por outra pessoa. Cantarolei na minha cabeça e quando desliguei o chuveiro, ouvi Caetano cantar pra mim. Mas não tem revolta não, eu só quero que você se encontre... Ué, eu não sabia que tinha essa música no celular. Peguei minha toalha e notei que tinha deixado o celular no quarto, não fazia ideia de onde essa música estava vindo. 
   Quando saí do banheiro, percorri por toda a casa e finalmente percebi que a música vinha do quintal e do outro lado do muro. Olhei o relógio: dez pras cinco. Eu não sabia que a dona Lordes acordava tão cedo. Arrumei-me, tomei café e fui para a parada de ônibus. 
   Na faculdade, no meio da aula de ciência política que dois alunos discutiam com o professor com opiniões egoístas, lembrei-me de um detalhe da dona Lordes: ela é surda. Uma viúva pequena de cabelos brancos e curtos e dona de uma simpatia inigualável, ela mora numa casa grande e com um papagaio. Todas as vezes que nos falávamos, tinha que gritar no seu ouvido e isso a fazia rir com o meu mau jeito com o tom das palavras. Ela deve ter deixado o rádio ligado e não percebeu.
   Assim que cheguei, vi dona Lordes saindo de casa com sua sacola reciclável e um chapéu florido que a protege do sol. Acelerei o passo e fui falar com ela:
   - Oi, dona Lordes, tudo bem com a senhora? - gritei a medida que me aproximava. 
   - Oi, Nathália! Tá tudo bem sim, tá chegando agora? - ela perguntou sorrindo. 
   - É, agora. A senhora tá indo fazer a feira? Posso acompanhá-la? Tá faltando umas frutas lá em casa, queria companhia. 
   - Ah, claro, vamos.
   Coloquei o braço dela no meu e adequei os meus passos aos dela, ouvindo-a falar que eu não precisava comprar goiaba, porque a goiabeira dela tava cheia.
   Fiz as compras, atentando-me aos conselhos dela do quanto é importante ter uma sacola reciclável para fazer a feira. 
   Quando estávamos voltando para casa, deixei-a terminar sobre o episódio de um quase assalto e perguntei:
   - Dona Lordes, hoje eu tava tomando banho e notei que o rádio da senhora estava ligado. A senhora já desligou?
   - O rádio te incomodou? - ela perguntou séria.
   - Não senhora - franzi a testa -, eu só pensei que tinha deixado o rádio ligado e não escutou.
   - Eu deixo ele ligado todos os dias - ela finalmente disse depois de alguns segundos -, mas ontem eu aumentei um pouco o volume.
   - E por quê?
   - Bom... - ela respirou fundo enquanto virávamos a esquina -, meu marido ficava horas no quintal com o rádio ligado cantando com o Louro e arrumando a goiabeira, sabe? Depois que ele foi ao hospital e não voltou, o Louro continuava cantando e deixei o rádio ligado para ele e para mim. 
   - Nossa, dona Lordes, desculpe, eu não sabia...
   - O que?
   - Eu disse que não sabia, peço perdão - falei mais alto.
   - Não se preocupe com isso. - ela disse rindo - Eu aumentei ontem, porque o Louro tá sentindo muito a falta dele esses dias e o rádio parece não tá dando mais conta. 
   Procurei a chave de casa no meu bolso enquanto ela entrava dentro de casa.
   - Às vezes, eu acho que ele ainda está lá no quintal. Na hora de dormir, quando vejo que o outro lado da cama tá vazio, é que me dou conta que ele não tá. Por isso que a goiabeira tá cheia.
   Olhei pro chão, não conseguia encará-la. 
   - Pois dona Lordes, qualquer coisa que precisar, me avise, ok? - fui mais sincera possível.
   Ela respondeu com um sorriso e fechou a porta.
   

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Uma carta pro cunhado



Fortaleza, 5 de janeiro de 2015.


Safado cunhado,


Cuida bem da minha irmã, babaca. Eu já a alertei do mundo estúpido que se esconde depois das suas cortinas brancas, mas ela logo esquece meus conselhos quando encara a mira dos teus olhos frios. Mamãe sabe o quanto aperto meu punho quando vejo teu sorriso malicioso e me lembro do teu passado ridículo entre os muros da cidade. Como um irmão preocupado, vou te dá umas dicas (para o bem dela, claro, você que se foda) para manter sempre essa felicidade que ela faz questão de mostrar pra gente por estar namorando contigo (a única coisa boa que você fez até agora).

Quando tiver dúvidas do humor, ela sempre estreita os olhos quando sorri, caso contrário, está fingindo. Quando tiver dúvidas do perdão, se ela fechar a boca e utilizar poucas palavras, ainda está desconfiada. Quando tiver dúvidas de onde levá-la para passear, lembre-se: ela tá pouco se importando com o lugar, só quer sua companhia. Quando ela demonstrar interesse às tuas músicas, é um ótimo sinal (eu sei que ela fez até questão de aprender uma música em francês pra chamar tua atenção). Quando ela responder com "não sei", ou ela realmente não sabe ou tá fazendo charme pra você insistir (se ela olhar para o chão com um sorriso tímido, já sabe a resposta). Quando ela pedir pra você deixar a barba crescer, larga de ser otário e pare de cortar (ela gosta de sentir a barba roçando na pele dela). Quando ela usar uma regata para ir ao cinema, denunciando suas tatuagens, leve sempre uma blusa extra (ela sempre nega, porque não quer parecer "frágil" até para o ar condicionado). E depois, pra minha infelicidade, do amor, faça alguma merda de gesto demonstrando seus sentimentos por ela.

Como eu sei disso tudo? Ela mora comigo desde o dia em que chegou coberta por um pano branco nos braços da minha mãe, fazendo-me tremer de nervosismo. Eu a conheço como ninguém e desejo tudo de melhor na vida dela, mesmo ao seu lado. Quando precisar, sabe meu número (mas vê se não abusa). 


Totalmente atencioso


Pablo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Primeiro encontro




   Enquanto meu corpo insistia em tremer de frio, e minhas mãos a suar, mais o nervosismo me abraçava. Quando menos esperei, o vi abrindo a porta do restaurante e encontrando meu olhar com um sorriso discreto. Nos cumprimentamos e quase agradeci quando perguntou se era melhor sentar na mesa do lado de fora. Conversamos timidamente, deixando escapar algumas gargalhadas e vergonhas, molhando as palavras com suco de laranja. Entre uma pergunta e outra, ele me envolveu em seus braços, beijou meu lábios, me fez ficar na ponta dos pés e roçou sua barba na minha pele. Precisei de alguns segundos para entrar no carro e ir pra casa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Olha o que você fez




   Neguei meus princípios, tentei ultrapassar meus limites e me forcei a comer uva passas com arroz no Natal com sua família. Pintou a parede do meu quarto, mudou a posição da cama e me guiou até eu me perder. Utilizou a lábia de especialista e consertou minha televisão, mas, quando partiu, deixo-a em preto e branco. Agora, largada no sofá com as frutas podres, abandonei as folhas que te incluíam em um mundo de perdão com pessoas dispostas a não atropelarem nosso relacionamento. 
   Não parei de escrever, não parei de saciar a vontade incontrolável de brincar com as palavras e fantasiar os mais estúpidos planos. Parei de me importar com suas encenações de eu-prometo-que-é-só-uma-fase-e-tudo-ficará-bem. Sim, eu sei que já falei isso antes e até peço desculpas pelos tombos que proporcionei - você bem sabe que a vida dá uns tropeços de vez em sempre.
   Só não esquece de vestir a camisa jogada na cadeira, deixar o telefone do pedreiro - pra ele vir dar uma olhada na parede rachada - e não olhar pra cima - porque eu vou estar te vendo dobrar a esquina. 

domingo, 7 de setembro de 2014

Meu modo de amar




   Desculpe-me quando me banho nos mares das minhas fantasias e te deixo curioso, negando revelar meus segredos. Nunca percebeu que eu planejo bobagens ao seu lado? Não te preocupas, porque meus maiores segredos te contarei ao lado do tempo.
   Você diz que não te dou valor, mas, meu bem, você não entende que quando, mesmo estando certa, eu te peço perdão, só para a gente não discutir? 
   Quando nego seu convite para ir jantar e ofereço a minha cozinha, não é porque tenho vergonha de você e não quero que as pessoas nos vejam juntos, como você insiste dizer. É pedir demais querer um lugar só nosso, com a nossa comida e as nossas risadas como companhia? 
   Perdoe-me quando me calo depois dos teus desabafos misturados com os teus soluços. Você mesmo recita aquela famosa frase de Leonardo da Vinci, as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar, e eu a carrego sempre comigo, oferendo meu colo e minha mão no teu cabelo.
   Lembro-me bem do dia em que você cuspiu as mais sinceras palavras, alegando meu egoísmo o culpado dos nossos desentendimentos. Eu congelei, absorvi tudo e te dei razão. Não foi por insegura e, tão pouco, medo do que os outros vão pensar. O meu modo de amar não condiz com o tempo e o espaço em que vivo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Libertando-me




   Lembro-me bem quando suas mãos tocaram meu rosto, delicadamente, e, minutos depois, você consumia meus segredos, discretamente, protegendo-me de qualquer mal presente ali. O problema, querido, é que eu não conseguia sentir o mesmo - e aquilo realmente me envergonhava. 
   Não neguei e não me arrependo. Conheci teu mundo, compartilhamos nossos sonhos - que nós até, boa parte, realizamos juntos - e inventamos nossas próprias certezas. Te levei aos meus lugares preferidos, fizemos, no meio da bagunça das nossas vidas, os jantares de sexta à noite, sempre dançando e rindo. Eu realmente sinto falta disso.
   Agradeço o ombro compartilhado, os sorrisos arrancados, a brutalidade das suas palavras, quando eu merecia, e o doce som da sua voz para me acalmar. Mas você me deixou partir, meu bem. 
   Você sabia de tudo, continuou, mas desistiu logo depois.Tenho medos, que me envergonho, e precisa ser paciente comigo. Você sempre disse que é um defeito - o meu maior, por sinal -, porque eu não me arrisco. Mas eu sinto muito, é mais forte do que eu imaginava.
   Eu não queria ir, mas você disse que estava me libertando - mal sabia que quem estava sendo libertado era você.

domingo, 1 de junho de 2014

Passou o dia




   Fui deitando no peito quente, aos poucos, ouvindo sua respiração pesada, vendo, do canto dos meus olhos, seu olhar fixo, analisando meus passos. Controlei a sede de beijar teus sonhos, levar-te aos meus segredos e mostrar-te meus planos de vida. Eu queria gravar cada segundo, indo com calma, observando os traços do teu corpo, admirando teu sorriso e escutando a musicalidade da tua voz. Ignorei suas mãos desenhando minhas costelas, o calor das tuas pernas sobre as minhas e os lençóis sobre nós.
   Nós não precisávamos falar pra conversar. Por todo esse tempo, eu, finalmente, consegui viver o presente, sem pensar no passado ou planejar o futuro. Nossa sincronia, tanto corpórea quanto emocional, era incrível. 
   Eu não sei quanto tempo ficamos assim. Só lembro de ter acordado no domingo, depois das doze. 
   



A espera o levou pra longe
De quem nunca esteve por perto
E para mais perto de quem sempre longe
Apenas o queria por perto...

sábado, 10 de maio de 2014

De novo




   Em nenhum dos meus passos, desejei o pesado, o gelado. Ironia do destino, caminhei em ruas escuras e banhadas de chuva, fugindo de lembranças desagradáveis, mas que chegavam aos poucos, me entrelaçando na cidade amarela. 
   Tive pesadelos longos, sem sentido. Não imaginei reviver tudo novamente, só por mera distração. Tão pouco, imaginei deixar-me abater - eu já deveria estar acostumada. Porque sussurros, calafrios e simplicidade são combinações perigosas, eu já sabia disso, mas corri o risco. 
   Na meia-noite, prometi - de novo - a mim mesma que, nas profundas tempestades, eu não iria me afogar, nem debruçar-me sobre o chão frio e ficar perguntando, ao vento, o porquê de não fazê-lo quente. O café acabou e meu limite de esperar, em uma cadeira desconfortável e um céu cinza, foi estourado. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Fantasia




   Bares de solidão, tomei doses dobradas. 
   Praia sem sol, fui na madrugada.
   Cinema sem amor, mas ilusão nem sempre é acompanhada de dor.

   Procurei nos lugares calmos,
   um sentido pra vida.
   Nem imaginei um dia,
   ser vítima da fantasia.

   Fantasia comum da sociedade,
   que esconde a verdade
   e cria a angústia
   (que a gente nem sabe o que faz com ela).

   A gente fica rondando a cidade, que à noite é amarela, atrás de uma razão, sem saber ao certo qual seria. Pula o muro rachado, anda mais rápido e, no fim, às vezes até tarde demais, aprende que nunca deveria ter saído do lugar. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Razões para acreditar

   Em meio aos noticiários catastróficos, pessimismo, tristeza e insegurança, eu procuro o lado bom da coisa, até nos mínimos detalhes - e isso acaba sendo um defeito, eu acho. No final das contas, ou eu aprendo com os erros - procurando nunca repeti-los - ou perco as esperanças sobre tal situação - na pior das hipóteses. 
   Quando o dia desbota, procuro não envolver muitas pessoas nos meus problemas - na maioria das vezes, sem sucesso - e acabo descontando nos blocos de papeis. Outras vezes, eu entro no Razões para Acreditar ou no Hypeness e fico navegando, com as emoções a flor da pele. Assim, esqueço, mesmo que temporariamente, os problemas e viajo imaginando um mundo melhor.
   Mas antes de imaginar, por que não mudar? Não adianta exigir "um novo mundo" se os próprios moradores não mudam. 

   
   Seja generoso.

   É difícil ser educado todos os dias, vamos admitir. Mas tentar nunca é demais, né? Um rapaz se veste de garçom e serve os moradores de rua, como se fossem clientes de um restaurante, com gentileza e simpatia. Reparem como a maioria fica surpresa e feliz com tal ação. 




   Faça a diferença.

   Um garotinho, muito engraçado, fez um vídeo selecionando "20 coisas que deveríamos falar mais vezes". Seu carisma revela que tais pontos são fundamentais para uma vida melhor. Vale a pena dá uma olhada. :)




   Ame.

   Apesar deste ponto ser "ame", selecionei um vídeo, que eu particularmente adoro, que demonstra um misto de vergonha e sensualidade - pontos principais existentes em um amor. Nele, completos estranhos terão que se beijar para uma propaganda. É realmente lindo. 



   Acredite!

   Pra finalizar, eu gosto dessa: um casal tirou a mesma foto em diferentes épocas do ano. A última é de emocionar. 

  

sábado, 22 de março de 2014

5 maneiras de começar o dia bem

   O que fazer quando tudo está fora do lugar? A vontade de mandar tudo à merda e sair sem rumo é grande, mas, muitas vezes, não é possível - afinal, é um dia da semana em que o trabalho te chama e os deveres também. 
   Sempre fui muito paciente - e tem gente que ainda discorda - e tenho meus métodos para começar, ou terminar, o dia bem. Claro, só ocorre quando estou realmente decidida a ter um bom dia, caso contrário, fico com a cara fechada e chata pra caramba. 

   1. Comece o dia ouvindo uma música que te faça bem.

   Música do cantor Wado, com a participação especial de Cícero - que, na minha opinião, ele é um dos artistas que salva a música brasileira -, é ideal para levantar da cama com um sorriso bobo. Pode até ter um efeito diferente em você, mas quando escuto-a, é difícil ter um dia ruim.



   2. Escrava o que te incomoda e o que te deixa feliz.
   
   Tão bom desabafar, né? Eu sempre faço isso nos rascunhos que deixo abandonados pelo quarto - é até engraçado depois. Assim, eu compro - sério, tenho vários, fico louca quando vejo -, blocos de papel, só pra jogar na bolsa e rabiscar quando o tédio me abraça.





   3. Relembre das noites com os amigos.

   Eu tenho os melhores amigos do mundo - e você também! História é o que não falta, principalmente quando se trata de amigos de infância. O tempo que estamos juntos, parece voar e quando estamos distantes, resolve parar. Mas mesmo assim, as lembranças e as fotografias nos revelam a nossa melhor escolha. 

   

   4. Leia.

   Sim, leia. Na minha barra de favoritos, são inúmeros os sites, só de crônicas e poemas, que eu reservo para noite. Entenda Os Homens - que, por sinal, eu não canso de citar - e Sangue e Solidão são os principais. Os assuntos são diversos e os textos são lindos.



   5. Faça o dia ser bom.

   Como? Não se importe com os olhares tortos e nem com as críticas que são mal intencionadas. Diga, para alguém que se importa, que é especial pra você, dê uma olhada na lua, deixa a janela aberta e vá dormir depois de um bom banho quente. Clarice Lispector disse "renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. :)




Todas as fotos acima são de minha autoria.